domingo, 16 de maio de 2010

Um inventário da memória


Se Acaso Você Chegasse



Um intario da Memória



O espetáculo “Se acaso você chegasse” tem por tarefa uma amarração deveras desafiadora: discorrer sobre a vida de uma das maiores cantoras brasileira, sem tornar a obra em uma biografia. Mas, se nos deparamos com um conjunto ficcional/verídico de lembranças de uma personagem que, na verdade se revela no palco como uma multidão, que resultado será possível? O melhor. “Se acaso” faz um bricolage da vida de Elza Soares mostrando todas Elzas possíveis em diálogo, como se todas, num turbilhão de lembranças - como nos ocorre no decorrer da vida - trocassem impressões. E os diálogos vão dos mais ácidos, tristes e marcantes ao mais alegres e os que- sobretudo - mostram a superação. Não as superações que estamos acostumados a ver, banalizadas, mas a queda de uma mulher, que se espatifa, como um espelho jogado ao chão, mas se remonta, agora em forma de mosaico – portanto obra de arte. Não sem dor e sofrimento, as Elza fazem graça da vida, compõem uma tessitura da existência, uma “estética de si mesmas”. Momento emblemático: Elza de um tempo outro pergunta a uma Elza mais contemporânea: “E o tempo?” E como resposta obtém com um riso maroto “As marcas? Não vê? – apontando a face – Apaguei todas!”. Se a Elza, aquela que não a multidão da ficção que está em cartaz, conseguiu apagar as marcas do tempo, nunca saberemos. Mas é possível, através da obra - ou de um grande momento, como o da abertura dos Jogos Pan Americanos, quando surge uma Elza fulgurante e canta o hino nacional, à capela, sem que um som seja ouvido no estádio, lotado além de sua voz – percebemos que a capacidade de se recompor, para alguns, é infinita. Para nossas Elzas, presentificadas como multidão de mulheres curvilíneas e decididas que dão vida às memórias dessa outra Elza, resta a constatação que fazem parte de um inventário, de um memorial sem tempo. Mas, se tratando de quem se trata, em verdade, um inventário de constelações. Estrelas, que brilham. E quando, com o passar do tempo, que com sua grande roda tudo traga - menos a arte - e a voz de Elza surgir, de rádios, CDs, mp3s, 4, 5, a multidão se fará viva novamente e muitas outras histórias serão contatadas. Pois as estrelas brilham, mesmo quando sua existência material já chegou ao seu final.



Julio Cesar D. HoenischMe. Em Psicologia PUC/RS Especialista em Saude Publica/FioCruz-ESPRS.Prof. Visitante do Nucleo de Estudos da Contemporaneidade - UEFS/BA